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CÍRIO DE NAZARÉ

 

 

CÍRIO EM BELÉM

Espírito natalino em pleno mês de outubro

Foto: Carlos SilvaSão quase 300 anos de uma história em que protagonistas anônimos reúnem-se para expressar a crença em Nossa Senhora de Nazaré.

O Círio é o momento ímpar de devoção, fé e amor, quando milhares inundam as ruas de Belém do Pará, na maior procissão de fé cristã católica, no segundo domingo de outubro.

Espetáculos de devoção se multiplicam e emocionam o Pará de muitos círios. Grandes e pequenos. Centenários e recentes. Diferentes entre si, mas todos, exemplos de fé.

Entre eles, porém, um se destaca pela força e a grandeza da festa: o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém. São quase dois milhões de pessoas, entre acompanhantes e espectadores, percorrendo 4,5 quilômetros até a Praça Santuário, em frente à Basílica.

Durante o Natal dos paraenses, como o círio é chamado pelo amazônidas, a cidade fervilha culturalmente.

 

 

 

HISTÓRIA

Séculos de uma história de amor e devoção a Maria

Foto: Luiz BragaA devoção à Nossa Senhora de Nazaré no Pará começou em 1700, quando o caboclo Plácido encontrou uma imagem da Virgem no igarapé Murutucu - onde hoje é a travessa 14 de março, em Belém. Levou a imagem para casa, mas, misteriosamente, ela retornou ao local onde foi encontrada. O fato se repetiu várias vezes e Plácido decidiu construir uma pequena capela no lugar do achado, onde milhares de viajantes e romeiros vinham em busca de graças e milagres da santa.

A imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Foto: Carlos SilvaMas foi somente nove décadas depois que tanta devoção deu origem ao Círio de Nazaré. A procissão foi realizada pela primeira vez como pagamento de uma promessa. Era 8 de setembro de 1793, uma quarta-feira. Naquele ano, o governador português Francisco Coutinho, impressionado com as romarias à ermida de Nazaré, decidiu organizar uma festa pública para divulgar essa devoção. Toda a população do interior foi convidada para uma grande feira, onde as pessoas iriam expor seus produtos da lavoura, além de participar de um fascinante evento religioso.

Às vésperas da festa, o governador adoeceu. Prometeu à Virgem que se melhorasse iria buscar a imagem na ermida para levá-la até o Palácio do Governo, onde faria celebrar uma missa. Em seguida, a traria de volta em romaria. Recuperado, o governador cumpriu sua promessa e assim se iniciou a maior procissão religiosa do Brasil, nas ruas de Belém.

Até o início do ano 1900, a grande procissão acontecia em setembro. Hoje, é realizada no segundo domingo de outubro. O percurso também era diferente, pois inicialmente saía da capela do Palácio do Governo em direção à ermida no Igarapé Murutucu.

Em 1882, o bispo Dom Macedo Costa decidiu que o ponto de partida seria a Catedral. As ruas de Belém não eram asfaltadas e viravam grandes atoleiros com as cheias da baía de Guajará, que banha parte da cidade, em especial a área onde passa a procissão. Por causa disso, a Berlinda com a imagem da santa era puxada por bois, que precisavam do reforço de uma corda num desses atoleiros.

A corda no Círio de Nazaré. Foto: Carlos SilvaNo século XX, os bois foram retirados da procissão porque começaram a oferecer risco para os fiéis que acompanhavam a imagem, mas a corda permaneceu e se tornou um dos principais símbolos da festa de Nazaré.

Trasladação - A primeira Trasladação aconteceu em 1793. Na véspera da procissão, o pároco levava a imagem primeiro para a capela do Palácio do Governo e depois para a Catedral. Ele era acompanhado apenas por um pequeno grupo de pessoas. Atualmente, a Trasladação é praticamente um outro Círio.

 

 

 

TRASLADAÇÃO

Berlinda durante a trasladação. Foto: Carlos SilvaA Trasladação é o mais tradicional entre os eventos que antecedem o Círio. Começou na noite anterior ao primeiro Círio de Nazaré, em 1793.

A procissão originou-se de uma circular do governador da época, Dom Francisco de Souza Coutinho, determinando que a imagem da Virgem fosse conduzida da igreja onde estava para a capela do Palácio do Governo, de onde sairia o Círio na manhã seguinte. Desde então, a tradição vem sendo cumprida.

Foto: Carlos SilvaA procissão geralmente é longa. Em 2000, por exemplo, durou das 17 horas de sábado à uma da madrugada de domingo.

Ao longo de todo o trajeto o povo se aglomera nas ruas transversais ao cortejo para ver à passagem da Berlinda, que conduz a imagem da Virgem de Nazaré.

No domingo a imagem será levada, bem cedo, para a grande procissão do Círio, que é considerada uma das maiores romarias católicas do mundo, por reunir cerca de 1,5 milhão de pessoas nas ruas de Belém.

 

 

 

ROMARIAS

Sexta-feira: o início da peregrinação

Foto: Carlos SilvaA peregrinação da imagem de Nossa Senhora de Nazaré, na semana do Círio, começa na sexta-feira que antecede a grande procissão do segundo domingo de outubro.

A primeira homenagem que a padroeira recebe acontece durante o percurso em que a imagem sai da Basílica de Nazaré, no centro da capital paraense, até a igreja matriz do município de Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém.

O trajeto inicia por volta das 14h e termina às 19 horas. Ao longo de todo o percurso, Nossa Senhora, cuja imagem é conduzida em carro aberto, é saudada com chuvas de papel picado, pétalas de rosas, fogos de artifício, cânticos, orações e, às vezes, o silêncio.

Em um ponto do trajeto - na saída de Belém - o bispo concede a bênção aos fiéis. Em alguns momentos, a imagem é seguida por pedestres e ciclistas. No início da noite, a santa chega a Ananindeua, onde é recebida por uma multidão de fiéis, que passa a noite em vigília.

Sábado: segundo dia de romaria

Foto: André MarquesDepois de passar a noite na Igreja Matriz de Ananindeua, a imagem, já na madrugada de sábado, é conduzida por mais uma procissão, a rodoviária. Por volta de cinco horas da manhã, o arcebispo metropolitano de Belém celebra uma missa, que dá início à segunda fase da romaria.

Depois da celebração, a imagem é colocada no alto de um caminhão, sob uma redoma, protegida pela Guarda da Santa. Como no traslado de Belém a Ananindeua, o caminhão vai acompanhado de vários motoqueiros. A procissão na rodovia BR-316 é seguida pelos carros da Diretoria do Círio, Polícia Rodoviária, Cruz Vermelha e centenas de outros veículos.

A procissão vai até o trapiche da Vila de Icoaraci, distrito de Belém. E de lá que sai outra tradicional romaria.

Romaria fluvial

Foto: Carlos SilvaA padroeira dos paraenses é também a padroeira dos navegantes. Por isso, a romaria fluvial é um dos mais esperados, belos e emocionantes momentos de devoção à virgem de Nazaré. O evento foi realizado pela primeira vez em 8 de outubro de 1986, organizado pela Paratur.

A imagem é levada por um barco, enfeitado com flores, balões e fitas coloridas. A embarcação segue pela baía do Guajará, no entorno de Belém, seguida por centenas de outros barcos ornamentados. As embarcações que acompanham o evento também participam de um concurso promovido pela Paratur, que escolhe a mais bela decoração.

Fogos durante a trasladação. Foto: Carlos SilvaO trajeto Icoaraci-Belém dura, em média, cinco horas. Ao chegar ao cais do porto da capital, a virgem recebe mais homenagens com queima de fogos. A imagem é recebida por uma multidão. São motoqueiros, motoristas e outros milhares de fiéis. A imagem é conduzida até o Colégio Gentil Bittencourt, de onde só sai à noite, para a trasladação.

Há infinitas manifestações de devoção durante o mês de outubro. Em Belém, uma outra expressão de fé vem das crianças. O Círio das Crianças acontece sempre no primeiro domingo depois da grande procissão. A romaria dos pequenos é grande em homenagens. Ao longo de todo o percurso da procissão, que começa logo após uma missa campal na Praça Santuário, os pequenos fiéis cantam, rezam e balançam lenços para Nossa Senhora de Nazaré.

As crianças, que antes só eram vistas no grande Círio, enfeitando os carros dos anjos - como fruto de promessas - ou no colo dos pais, ganharam uma procissão só para elas, em 1990. A caminhada dos romeiros mirins é repleta de particularidades. Os cânticos religiosos, por exemplo, são em versão infantil.

Fogos são lançados ao longo da procissão para alegrar a meninada. Um carro som também ajuda na empolgação. A romaria é curta, de apenas 1,8 quilômetros, e dura, em média, uma hora e meia. Ao final, apesar do cansaço, os pequenos ainda mostram fôlego para enfrentar uma longa fila e realizar um desejo: beijar a imagem da Santa.

Uma despedida repleta de emoções

O Recírio é o último momento do Círio de Nazaré. É quando os paraenses se despedem de sua padroeira, na segunda-feira, 15 dias após a grande procissão do segundo domingo de outubro. Nesse dia, a cidade pára. O sentimento é de saudade. É o fim do encontro entre Mãe e Filho. De manhã, quando é realizada a procissão, nada funciona em Belém.

O Recírio começa após uma missa campal no Centro Arquitetônico de Nazaré às primeiras hora da manhã. Depois, a imagem da padroeira dos paraenses é conduzida em um andor pelas ruas ao redor da Praça Santuário, em frente a Basílica de Nazaré em direção à Capela do Colégio Gentil Bittencourt, onde ficará até o próximo Círio. É um trajeto curto, de apenas meia-hora, mas suficiente para os fiéis prestarem suas últimas homenagens à Santa.

 

 

 

COMIDAS

Maniçoba. Foto: Carlos SilvaA festa do Círio de Nazaré, considerada o Natal dos paraenses, tem como um dos grandes momentos o almoço do domingo de Círio. Em todos os lares, o almoço do Círio confraterniza as famílias, hóspedes e amigos.

É quando a rica culinária paraense pode ser melhor apreciada. Além dos pratos típicos, como o pato no tucupi e a exótica maniçoba, os frutos do mar, da floresta, dos rios e das imensas fazendas paraenses compõem os cardápios: enormes peixes, como o pirarucu, a pescada amarela, o tambaqui, o tucunaré e o filhote, assados inteiros ou em moquecas.

Pato noTucupi. Foto: Luiz BragaTem ainda os filés de búfalo da ilha do Marajó; camarões rosados e cinzentos, patas de caranguejo, ostras e sernambis, oriundos da Amazônia Atlântica; delicados cremes e deliciosos sorvetes de frutas variadas – mangas, abacaxis, açaí e também bacuris, cupuaçus e muricis; queijo fresco; tartarugas oriundas dos criatórios artificiais; e uma das melhores cervejas brasileiras.

O Pará herdou a arte portuguesa dos doces, e aplicou-a sobre as frutas amazônicas: as tortas, docinhos e bombons recheados são únicos e deliciosos.

A mandioca tem um papel expressivo. De seu processamento saem o tucupi, a farinha d´água – que acompanha as principais refeições – e o amido, chamado tapioca, usado em diversos pratos e sorvete.

 

 

 

 

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